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Um universo além do picadeiro
Fonte: Rodrigo Assmann Clique para Ampliar

Quando pinta o nariz de vermelho e veste seu terno colorido, José dos Santos Moura se transforma no palhaço Sorriso. No entanto, quando ele põe em prática seus dotes no trapézio, vira Daniel Moura. “José não é nome de trapezista, por isso escolhi Daniel. Acho mais bonito”, brinca o homem que começou a trabalhar quando tinha apenas 14 anos, passou por diversas companhias, incluindo Beto Carrero e Stankowich, e hoje é uma das principais atrações do Circo Vostok, instalado no Parque da Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul.
Hoje, aos 40 e com quatro filhos, ele fala orgulhoso sobre a vida que trilhou embaixo das lonas. Em um camarim improvisado atrás do picadeiro, ele aproveita os instantes antes do início do espetáculo para arrumar o filho Cauã – ou melhor, o palhaço Sorrisinho. Juntos, eles executam um dos números mais aplaudidos do espetáculo, em que o menino se transforma em um boneco de pano e exibe uma elasticidade que adquiriu desde cedo.
Com apenas 5 anos, Sorrisinho ainda é tímido, mas desempenha seu papel com a maturidade de um adulto. De terno verde e cabelo alinhado, ele fica quietinho para que o pai o maquie. Depois, veste a roupa de boneco e se esconde em uma minúscula caixa, onde partem para o picadeiro.
Mas a dupla de sorrisos não está sozinha na lida do circo. Outros três filhos do palhaço já trilham suas carreiras: Daniele executa um número de bambolê e trapézio, Josiele é craque na lira, um aparelho aéreo em formato de círculo que fica suspenso por um cabo de aço, enquanto Rafael está aprendendo a se equilibrar no monociclo. Como a vida de palhaço é uma verdadeira volta ao mundo, os filhos de Sorriso nasceram em Estados bem distintos: Mato Grosso, Rondônia, Acre e Goiânia. Mas neste ano vão comemorar o Natal e Ano-Novo em local onde nunca estiveram antes, em solo santa-cruzense.

Do teatro para o circo

Enquanto se maquia sentado em uma cadeira, com um espelho de mão, Fábio Santos conta que é um artista do teatro. O paulista foi ator e diretor, mas trocou a interpretação nos palcos pelas acrobacias na corda, nos panos (vestido de Homem-Aranha) e pela arriscada pirofagia (espetáculo com fogo), a qual lhe garantiu o apelido de “Mr. Fire”.
No circo, o figurino fica por conta dos artistas. Eles mesmos produzem as roupas que usam nas apresentações e também é deles a responsabilidade pela maquiagem. No caso de Santos, não é diferente. Para a primeira entrada, ele aplica o glitter azul e prata em um detalhe que projetou sobre as sobrancelhas. Antes de virar artista de circo, fez um curso de maquiagens com efeitos especiais e hoje coloca em prática os conhecimentos.
Ao falar com a reportagem do Magazine, o artista de porte magro, mas de músculos evidentes, deixa de lado a seriedade e diz que se apaixonou pela arte circense. Começou aos poucos, fazendo alguns trabalhos extras, mas acabou gostando tanto que nunca mais foi embora. Antes de entrar em cena, já no aquecimento, Santos ainda deixa escapar que entre as partes preferidas da carreira, gosta mesmo é de dar entrevista e ser fotografado. Depois, dá uma risada divertida e volta para sua concentração. É o momento de escalar as alturas e ficar suspenso em uma corda, enquanto os santa-cruzenses admiram a ousadia de quem hoje faz do circo a sua nova morada.

Os espetáculos morreram?

Alexandre Vostok pisa nos tablados improvisados em cima da brita e terra batida e caminha em meio às gigantes e pesadas cortinas de lona com a tranquilidade de quem nasceu e cresceu naquele universo. Paraibano de nascença, filho do mundo pelas circunstâncias – viajou durante décadas por todo o Brasil e vários países da América do Sul –, herdou em 1976 o circo do pai, que havia herdado do pai dele, que por sua vez trouxe da Argentina para o País, ainda nos anos 50, a inconfundível marca lançada na Rússia.
A poucos minutos do começo de uma das dezenas de sessões programadas para a temporada em Santa Cruz do Sul, já trajado com as vestes inspiradas nas dos guardas russos com as quais encarna o apresentador do espetáculo, Alexandre sente-se bem como há muito tempo não sentia. No início da década passada, tentou aposentar-se e transferiu-se com a família para Las Vegas, onde mesmo ainda vivendo de números circenses, ao menos escapou do desgaste da itinerância. Em 2010, porém, bateu a saudade de mais de 20 anos de estrada e gargalhadas. “Meus filhos insistiram e resolvemos vir. Era para ser só seis meses, mas agora vamos ficar o ano que vem inteiro. Já tive infarto, diabetes e câncer, mas a última vez que fui ao médico ele disse que nunca estive tão bem. E eu sei que é porque estou fazendo o que gosto”, relata.
Os cerca de dez anos que separaram a transferência para os Estados Unidos e o retorno ao Brasil foram suficientes para surpreender a trupe. O ambiente que encontraram para desbravar com seus trailers e caminhões em pouco lembra a época em que o Vostok esteve no auge e foi o mais famoso circo do Brasil, principalmente nos anos 80. Para começar, o público minguou. Enquanto por muito tempo o circo foi uma das únicas fontes de lazer para as crianças, especialmente no interior, hoje os palhaços, trapezistas e malabaristas enfrentam a nada justa competição com a internet, televisão e shopping centers. “As pessoas querem hoje megaespetáculos, e tem crianças que nunca vieram ao circo.”
Depois, vieram as transformações físicas das cidades. Os enormes terrenos vazios de outrora, onde sobrava espaço para instalar os picadeiros, hoje estão ocupados por imóveis. “Escolhemos Santa Cruz porque sabíamos que aqui tem um parque com espaço para a gente. Em outros locais, não temos onde ficar”, lamenta. Os novos ginásios e auditórios também não ajudaram: antigamente, grupos de teatro e música tinham que aproveitar a estrutura dos circos para ter como se apresentar em municípios pequenos. O Vostok, por exemplo, trouxe os Trapalhões a Santa Cruz há quase 20 anos, e diversas duplas sertanejas também viajaram com a trupe.

FUTURO – Organizar uma turnê, atualmente, é também muito mais caro. As exigências da modernização impuseram uma interminável burocracia e regras cada vez mais rígidas, começando pela proibição do uso de animais (nem coelhos mais podem ser tirados de cartolas), passando pelas restrições à participação de crianças, e as taxas e alvarás, sem falar na natural elevação dos preços em geral. “Antes, o prefeito dizia que podia montar e a gente montava. Hoje, às vezes as prefeituras até querem nos ajudar, mas não podem porque a burocracia não deixa.” Com efeito, as equipes temem o aumento no valor do ingresso, que costuma ser multiplicado várias vezes, uma vez que se trata de um programa frequentado por famílias inteiras.
Paradoxalmente, o número de companhias no Brasil saltou de 200, naquela época, para quase dois mil. As de pequeno porte e regionalizadas proliferaram, ao passo que as grandes desapareceram ou se enfraqueceram – o caso do próprio Vostok. Por sorte, na medida em que surgiram as restrições legais, nasceram também os programas estatais de apoio em dinheiro, que devem assegurar a manutenção da tradição, mesmo em território hostil. E é por isso que, mesmo reconhecendo todas as dificuldades, Alexandre não se constrange em repetir sempre que pode o bordão oficial do Vostok e que, afinal de contas, dá esperanças para os fãs: “E a gente se encontra no circo, hein. Tchau!”.

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