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Edição de - Geral
Jacaré ou crocodilo?

A linguagem humana é uma fonte permanente de espanto e de curiosidade. Não há como negar, ela nos força a desautomatizar rotinas fortemente arraigadas, gerando, inclusive, perplexidades. Com o espanto vem a subsequente necessidade de refletir sobre o que causou espanto ou dúvida. Enfim, sobre o que nos desestabilizou. De fato, a linguagem sempre nos obriga a pensar. E muito. Por exemplo, professores, jornalistas, pesquisadores e alunos às vezes se deparam com comportamentos inesperados nos outros, constatando-os ainda em si mesmos, ao detectar certas idiossincrasias absolutamente imprevisíveis, singulares.

Dentre as formas de agir um tanto complexas e até inexplicáveis está ler uma palavra onde ela não está escrita. Incrível, não é? Mas é fato. Nosso cérebro parece controlar o que escrevemos e lemos à nossa revelia, mesmo sem que tenhamos consciência, ou seja, mesmo que não tenhamos controle consciente sobre as minúcias de nossa atividade linguística, sobre as combinações de palavras usadas no fio do discurso. Antecipamos o que o outro vai dizer, acrescentamos detalhes a respeito do que o outro disse, mesmo que ele não os tenha fornecido, usamos uma palavra pela outra e por aí vamos, mas não “descemos do salto”.

Por vezes lemos tantas, mas tantas vezes uma palavra, que já não sabemos ao certo qual é a sua escrita convencional. Outras, vemos algo escrito, porém lemos outra coisa, apesar de não estar ali diante de nossos olhos. Trocamos um termo pelo outro e pensamos estar lendo a tal palavra que nem está no texto. Levamos um susto. O que é realmente fantástico é que não fazemos substituições aleatórias. Não se trata de um vale- tudo qualquer. Assim, trocamos jacaré por crocodilo. Mas não por rinoceronte ou javali. Lé combina com cré, em alguma dimensão do significado. É hilário e um tantinho assustador. O que será que acontece no nosso cérebro, quando assim agimos?

Uma das importantes observações já feitas a respeito desse fato é que as palavras que trocamos relacionam-se entre si. A troca não é livre e desimpedida. Ela altera, mas não desarranja o nosso raciocínio, o nosso plano mental, que, em algumas circunstâncias, parece independer de nossa vontade. Assim, há alunos bons leitores, estudiosos e dedicados que na hora “H” falam ou leem “cidadões”, ao invés de cidadãos. Por que será? A pessoa jura que leu ou disse algo “assim” e, na verdade, leu ou disse assado. Claro, a experiência cultural pregressa é importante. Os antecedentes sociodiscursivos, a família, os amigos. Mas parece que essas trocas inadvertidas, às vezes bem mal recebidas pelo seu produtor, envolvem mais do que isso.

Na verdade, a troca de uma palavra pela outra ocorre em diferentes circunstâncias e mostra um funcionamento cerebral independente, até certo ponto, da vontade do freguês, que bem gostaria de não ter lido ou dito “cidadões”, já que, no caso de ser estudante universitário, usualmente monitora o que diz em situações mais formais, evitando usar as variantes dialetais discriminadas pela sociedade. É claro, não quer dar vexame! Mas acaba dando. Não há como negar, então, que lutar com as palavras dá pano para a manga. Há que estudar, há que ler!

Assim, as relações entre pensar, falar e escrever exigem muita reflexão e, além do mais, nós que nos interessamos, em especial, pela linguagem, precisamos registrar esses casos estranhíssimos de desencontro entre o lido e aquilo que está escrito, dado como líquido e certo, mas pelo visto nem tão certo assim, não é?

O caso que vou contar aconteceu com uma pessoa conhecida. Jurava que um texto técnico, já lido, continha um dado conceito e eu li e reli o dito texto, um livro, e ele não trazia o que a pessoa afirmava ter lido. Foi aquele constrangimento! Ao fim e ao cabo, a pessoa deu-se conta de que aquilo que afirmava que o autor dissera, de fato, não constava no texto. Surpresa!!! A pessoa fizera uma inferência, tirara uma conclusão e estava atribuindo-a ao autor. Puxa, levou um susto! No frigir dos ovos ficou satisfeita, afinal acrescentara algo ao que os outros já tinham dito. Contudo, fica o alerta. A linguagem nos dá muitos “safanões”. Uma coisa é certa, porém, não dá para confundir alhos com bugalhos. O que está escrito está escrito, e aquilo que deduzimos do que foi escrito pelo outro é conclusão nossa, nossa responsabilidade e não dele. Ah, a linguagem humana... tivesse eu sete vidas continuaria nela interessada, de olho em suas excentricidades, manhas e astúcias sem fim.

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