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Edição de - Letras
Vida em trânsito

Todo livro é, em primeira instância, uma carta que chega a nossas mãos. Podemos considerá-lo sob várias outras formas, de alguma maneira um tanto realista, prática, objetiva. Mas com um mínimo de sensibilidade e de abertura para a fantasia, para a indispensável imaginação que a vida plena requer, é assim que funciona.
Tome-se como exemplo o texto Quase memória, de Carlos Heitor Cony, volume que ele próprio classifica como um “quase-romance”. Cony escreveu essa obra em 1995 e nela lida, com enfoque claro, com o legado afetivo de seu pai. No enredo, um envelope chega aos cuidados do narrador (cujo posicionamento facilmente coincide com o do próprio autor). Não demora a perceber que o conteúdo vem de seu pai. Detalhe: este estava morto há mais de uma década.
A surpresa de uma carta vinda de alguém que já nem existe mais é a magia que, em grande medida, acompanha toda a literatura do passado. Tempos e espaços são implodidos, pulverizados, subvertidos, sob a batuta e sob as peripécias do imaginário do autor, que na massa da linguagem assume uma voz narrativa e nos transmite suas reminiscências. A obra de autores há muito tempo desaparecidos, sumidos na poeira das horas, como gostamos de conceituar, de repente se materializa em nosso cotidiano.
Cervantes, Balzac, Eça, Fernando Pessoa, Dostoievski, José de Alencar, Camus, Faulkner, Guimarães Rosa, Graciliano, todos já não são mais vivos. No entanto, como num feitiço suave, suas palavras, tal qual as propuseram em seu tempo, em seu suporte de escrita, vivificam reflexões, pensamentos, inquietudes, abrem a janela para uma história e deixam seu recado.
Bisavós, avós, pais ou irmãos de cada um de nós, esses indivíduos já desmaterializados, não existentes enquanto seres vivos, parece que nos acompanham, nos fazem companhia, dialogam conosco em silêncio, ao pé do ouvido, orientando-nos em nossa caminhada, ponderados, pacientes, afetuosos. Mas esse mérito de enviar cartas em forma de romances, poemas, contos, crônicas, peças de teatro, narrativas de viagem, enredos filosóficos, dentre outros, não é apenas de autores do passado. Assim igualmente o acima mencionado Cony, jornalista da melhor estirpe, em cada livro, da mesma forma nos lega um precioso conteúdo.

PATRIMÔNIO – Quase memória é pontual em sua lírica advertência: o tempo passa, e a dor e o desencanto de saber que o pai, falecido, irremediavelmente não poderá mais ser convidado a um passeio, que as frutas que ele gentilmente enviava, como uma surpresa marota, ao filho querido, nunca mais serão recebidas. Ainda assim, ele permanece ali, com suas ponderações, com suas orientações, com seus autênticos paradoxos humanos. Carlos Heitor Cony, nesse romance, a exemplo do que sugere em outros momentos (Matéria de memória, de 1962; A tarde da tua ausência, de 2003; O adiantado da hora, de 2006; A morte e a vida, de 2007), flerta com a brevidade e a urgência, com a consciência da finitude de tudo e da esperança de um alento; deixa-se tocar pelo imponderável.
Lançada originalmente em 1991, Patrimônio, obra de cunho autobiográfico do escritor norte-americano Philip Roth, dialoga com a de Cony de maneira sutil e delicada (até no título, reparem). Dois grandes escritores, narradores e seres humanos, nessas “cartas” refletem sobre a relação com os pais, já falecidos.
Se quisermos, em nossa própria existência, agir como o narrador de Quase memória, manuseando o pacote e revirando-o com toda a calma, resistindo contudo a desfazer os laços que o prendem, tudo bem. Afinal, cada texto que tivermos lido é tão somente a pedra de toque que faz a nossa imaginação e nossa próxima memória serem ativadas. Com um livro nas mãos, já teremos iniciado a apreciação, já teremos mergulhado no enredo de nossa própria história. Sermos capazes, igualmente, de escrevê-la e de enviá-la, como legado, como carta, aos vindouros, isso vai caber ao propósito e ao esforço de cada um.

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